sábado, 14 de janeiro de 2017

FIlme "Antes de Partir" (Ou sobre quando a morte nos leva um pedaço...)




Nos dois últimos meses eu chorei. Chorei litros. Chorei rios. E sim, adoro hipérboles.

Passei por inferno astral, aniversário infernal - afinal, não me venha com essa balela de dizer que chegar aos 30 é coisa fácil, porque não é coisa nenhuma! -, morte da vovó, acidente da mãe, trabalho, filme, livro, propaganda, música...

Ah! Pontequepartiu!!! Chorei até não aguentar mais chorar. Chorei até doer de tanto chorar. E, bem, eu tenho que manter a fama de coração de gengibre, por isso decidi parar com essa viadagem palhaçada!

Fonte: Adoro Cinema
Sexta-feira eu assisti ao filme "Antes de Partir" [Clica pra ir ver as infos do filme no Adoro Cinema], lançado em 2008, com Jack Nicholson [um dos melhores atores do Universo!] e Morgan Freeman [O cara é tão elegante, que até usando roupa de mecânico cheio de graxa ele ainda mantém o porte de lorde inglês].

Eu não lembro de algum dia já ter assistido a esse filme, de modo que essa deve ter sido a primeira vez. E já me bastou pra entender que não adianta mesmo ficar chorando.

Chorar pra desopilar o fígado? Tudo bem, afinal, infelizmente não dá pra sair espancando as pessoas por aí. Agora, chorar e se esconder debaixo das cobertas com medo da vida? Larga mão, companheiro! A vida é uma só, já cantava docemente o Poetinha...

O filme conta a história de Carter Chambers (Morgan Freeman), um homem inteligentíssimo, humilde, com um casamento estável e uma família linda. Ele trabalha como mecânico porque, sacomé, precisa sustentar a família. Um dia ele descobre que tem câncer e vai parar no hospital. Seu companheiro de quarto é nada menos que Edward Cole (Jack Nicholson), um bilionário arrogante que não suporta a si próprio, e, embora tenha muito dinheiro, Edward também tem câncer, afinal, as doenças não escolhem suas vítimas pela conta bancária.

Uma das ideias mais legais do filme é a tal da "Lista de Bota", que é uma listinha [quem ama lista, levanta a mão! o/] de coisas que a pessoa quer fazer antes de morrer. Bom, ambos estão em estágio de câncer terminal, e se juntam pra ir fazer as coisas que gostariam antes que a luz da vida se apagasse de seus olhos.

O filme é lindo. Engraçado. Comovente. Não poderia ser diferente, por se tratar de vida e morte. Não poderia ser ruim, tendo Nicholson e Freeman.

Daí vem a minha relação com o filme...



Lá em cima eu disse que vovó morreu. Pois bem, ela morreu de câncer. Câncer no pulmão. Doença que a transformou em alguém que eu não consegui reconhecer. No seu último dia de vida, nós fomos ao hospital, e ela estava na UTI. Ficamos vendo da "janelinha", e aquela mulher que estava deitada naquela cama não era minha avó. Não, não era.

Minha avó era uma italiana brava que nem o diabo, que saracoteava por todos os cantos, e não tinha aquelas pernas imóveis. Minha avó tinha os olhos azuis mais brilhantes desse mundo, e não aqueles apagados. Minha avó tinha uma risada gostosa, e não aquela mudez. Minha avó tinha lindos cabelos brancos, e não aquela cabeça raspada. Ela estava tão irreconhecível na cama do hospital, que, quando fizemos o velório, ela, deitada quietinha e em paz no caixão, se parecia muito mais consigo mesma...

Minha avó continua viva comigo. Em mim.

Semana passada minha mãe sofreu um acidente de carro. Ela e minha irmã. Elas estavam indo numa rua preferencial, quando uma menina veio a mais de 80 por hora, numa rua de bairro, furou a placa de pare, e bateu no carro da minha mãe. Segundo ela, por pouco, muito muito pouco, o carro não capotou. Ambas estão bem, com roxos e doloridos, mas bem. A dona moça lá não teve sequer um arranhão.

Eu fiquei desesperada! E dá-lhe chorar! Chora menina, chora...

Nesse mês, tive que aprender a lidar com a perda e com a sensação de que somos finitos, mas tão finitos, que a qualquer minuto podemos não estar mais aqui.

E é por isso que "Antes de Partir" faz tanto sentido. Porque a gente vai morrer mesmo, disso não há dúvida, mas não precisa viver a vida como se estivesse morto.

Um cara que me ensinou a enxergar a morte de um modo mais "suave" foi o Sêneca. Li todos os seus livros publicados em Português um atrás do outro. E Sêneca me abraçou e disse "Pare de chorar, menina! Viva, viva muito, viva tudo! Porque antes uma vida curta e plena, que uma existência longa e dolorosa". [Claro que ele não falou isso com essas palavras, né!]

Eu sei que, assim como eu, a maioria de vocês também não viu o ano passar. E sabe por quê? Porque andamos preocupados demais em ganhar a vida, e nos esquecemos de que a vida está em nós e não nas coisas.


A gente se preocupa tanto em ganhar dinheiro, pra depois gastar dinheiro, que se esquece de que essa maldição não é o mais importante!

E eu não estou dizendo que você faz isso, eu faço isso. Eu passo meus dias enterrada em trabalho, pra no começo do mês pagar as contas e contar as moedas pra ver se dá pra comprar algum livro ou tomar um sorvete.

Se tem uma coisa que decidi, bem decididinha, nesses últimos dias é que não quero mais viver aprisionada. Não quero mais viver aqui, dentro do quarto, sonhando com um dia deitada na rede. Vou mudar. Preciso mudar.

Não vou dizer que é fácil, porque a todo momento tenho vontade de voltar pras cobertas. Mas não deve ser impossível, não pode ser impossível!

Quanto a você, assista [se ainda não assistiu] "Antes de Partir". E me diga aqui como você faz pra driblar essa vida louca vida que te aprisiona.

Beijo procês!

Patrícia Pirota
Dezembro de 2012

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Esse post faz parte do resgate que estou fazendo do blog antigo, numa vibe "Recordar é viver".

Muitos dos hábitos, sentimentos ou opiniões podem não representar mais a pessoa que sou, mas fazem parte da pessoa que fui, de modo que serão reproduzidos.

As palavras, expressões ou termos que foram utilizados nos textos, mas não são adequadas para os dias atuais - tais como expressões politicamente incorretas - serão grifadas e substituídas por sinônimos. Embora muitas delas não representem mais o meu pensamento e posicionamento hoje, por fazerem parte de textos datados, também são testemunho histórico da época em que foram (re)produzidas, e serão mantidas.

Um comentário:

  1. Ahh Patrícia, tenho que me preparar psicologicamente para assistir a esse filme. Filmes assim me emocionam demais, até porque me lembra meu pai, que faleceu há 6 anos devido a um câncer também.
    Super beijo!

    www.mergulhandoemletras.com.br

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'Brigada por ter me dado um 'cadinho do seu tempo!
Assim que possível, respondo, viu!
Beijo procê!