quinta-feira, 11 de junho de 2015

A medida de nossas dores.

Lá estava eu - numa segunda-feira velha de guerra, que explorava todas as suas possibilidades em ser insuportavelmente segunda-feira - com o coração partido.

Na verdade, não era bem o coração que estava partido, mas o cérebro que havia ficado meio desequilibrado por conta de uma decepção aqui, uma frustração ali.

De todo modo, não é isso o que importa, o que importa é que eu, embora vestida de verde, me encontrasse tão cinzenta por dentro. E me arrastava como se estivesse presa a grilhões tão pesados quanto o mundo que não é o de Drummond.

Foi quando vi um de meus alunos mais fofos, mais serelepes, mais sorridentes, todo tristinho, ele próprio arrastando seus mini grilhões.

Soube então que, naquela tarde, seu cachorrinho tão amado seria sacrificado. Ali, na minha frente, estavam as lágrimas e os sentimentos de um menino de 10 anos, cujo melhor amigo canino seria morto.

Ali estava a infância sendo manchada por um acontecimento irreversível, e eu e meu pseudosofrimento nos sentimentos pequeninos diante daquela dor tão singela.

Porque os adultos estão acostumados com as tantas bofetadas diárias. Dói um 'cadinho, choramingamos um pouco, enchemos o saco dos amigos, as timelines dos desconhecidos e logo estamos prontos pra outra frustração, outro coração que, de tão partido, já nem se importa mais em ser incompleto.

Agora, a dor daquela criança, tão desacostumada sequer a chorar por um tombo, era tão grande, mas tão grande, que não cabia nela e transbordava em lágrimas. Lágrimas pesadas, doídas, sinceras.

Talvez hoje minhas lágrimas não sejam mais tão sinceras. Digo isso porque às vezes penso que inventamos nosso próprio sofrimento. É, é isso mesmo que eu disse, nós inventamos nosso próprio sofrimento. Porque viver sempre feliz incomoda, não só a nós mesmos, mas aos outros, e, consequentemente, a nós mesmos de novo. Daí que esse ciclo vicioso acaba criando em nós, seres desumanos, essa necessidade de sofrer.

Não me venha dizer que você, em nenhum momentozinho desta malfadada vida, nunca inventou um sofrimento. 'Cê jura, bem?! Pense bem, meu bem...

Porque nós não conseguimos levar uma vida mais do mesmo pra sempre. Uma hora ou outra a gente inventa um terremoto qualquer só pra desopilar um pouco, chorar um pouco e depois sair por aí sorrindo à toa porque a vida, oras, a vida é bela assim mesmo, entre casas, bananeiras, laranjeiras e tudo indo devagar, igual à cidadezinha qualquer drummondiana.

No final do dia, escrevi um bilhetinho pro aluno fofo: "Vai ficar tudo bem, eu prometo! Essa tristeza aí vai passar, e vão ficar só as boas lembranças no lugar. Beijinho!". Ele leu, sorriu e voltou pro seu lugar ainda com os passos pesados de quem vai encarar a morte pela primeira vez.

Depois, fiquei com vergonha daquele meu tal coração partido lá do começo do texto. O que era mais uma decepção banal dessa tal de vida perto da perda irreparável de uma criança que ainda vê o mundo com os olhos da inocência?

Minha dor ficou tão pequena, que sumiu de vergonha. Afinal, ela não merecia morar nos meus pensamentos. Era uma dor tão boba, que despachei-a pra terra das dores bobocas, que inventamos pra fingir que estamos vivos.

Mas não é muito melhor estarmos vivos sem precisarmos ter pena de nós mesmos? Estarmos vivos porque sim, temos uma vida boa, casa, comida, roupa lavada e emprego pra bater o ponto todo dia? Estarmos vivos porque podemos encontrar amor em nós mesmos e ao nosso redor a todo momento? Estarmos vivos porque a vida, sem mistificações, nos basta? Estarmos vivos porque, aleluia!, o mundo está cheio de possibilidades?

Essa vida besta mesmo, meu deus, mas tão nossa, com nossas próprias pedras, que vão ficando pelo caminho, se as deixarmos... Essa vida aí, que te faz olhar pela janela e sorrir só porque daqui a pouco você vai encontrar alguém, ou a si mesmo, pra sorrir junto. Essa vida que nos faz ter esperança, por menor e mais boba que seja. Essa vida que é bonita, e é bonita e é bonita porque é nossa, tão absurdamente nossa.

E posso te contar uma coisa? Não é que, no final das contas, até eu acreditei no meu próprio recado? ;)

Patrícia Pirota
Outubro de 2013

3 comentários:

'Brigada por ter me dado um 'cadinho do seu tempo!
Assim que possível, respondo, viu!
Beijo procê!