sexta-feira, 8 de maio de 2015

Antes de você chegar.

A hora teima em não passar enquanto ainda estou juntando as migalhas que você me deixou.
Parece que todo o colorido dos meus dias está se esvaindo em palavras,
e cinza
e pó.
Não quero mais tentar entender.
Até porque, isso não faria diferença nenhuma pra você.
Posso até buscar nas árvores aquele coração que um dia a gente desenhou.
Posso até sentar num banquinho e esperar seu amor voltar.
Mas não quero mais insistir em tantos sonhos.
Prefiro andar pelas calçadas, sujas de tristeza e desassossego.
Resolvo correr pela chuva, que lava meus ódios esquecidos.
Enquanto isso,
você deve estar sentindo que não faço falta.
Pensando que talvez tenha sido melhor
que seu delete tenha caído sobre minha lembrança.
Não quero mais ouvir sua voz terna,
sentir seu cheiro doce
e sorrir com suas mãos acariciando meus cabelos.
Vou buscar a paz que deixei esquecida num canto de mim.
Entre notas de silêncio e dor,
num lugar estranho deixado por alguém que eu era
antes de você chegar,
e destruir todos os castelos,
e sequestrar todas as princesas,
e me deixar continuar a dormir...

Patrícia Pirota
Outono de 2006

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Todo palhaço coloca um fim no carnaval...

Arte de Luluyse
Ela levantou num dia como outro qualquer, se olhou no espelho, sorriu seu melhor sorriso, percebeu o quanto a natureza tinha sido delicada em talhar seus traços, e foi fazer qualquer coisa que não vem ao caso nessa história. O que vem ao caso é que, como naqueles filmes americanos em que a mocinha tropeça e o mocinho a salva de cair, ela esbarrou nele.

Bonito, bonito ele não era, mas tinha um quê de amor. Porque o amor não escolhe belezas, ele simplesmente se esconde nelas, e espera que nós o encontremos num olhar, num suspiro, numa meia luz de um bar qualquer. E foi num piscar de olhos nessa meia luz que ela reconheceu o amor.

Há uma história de um velho escritor controverso, famoso mas não muito benquisto pela academia, na qual ele fala sobre um ponto luminoso sobre os ombros [ou seria nas orelhas?!] da suposta cara metade. Não pergunte porque esta narradora estúpida se lembrou dessa história agora, muito menos de onde tirei coragem em citar algo deste cidadão.

De qualquer forma, era como se ela tivesse visto nele aquele ponto luminoso. Era como se aquele, até então, completo estranho, tivesse se tornado sua alma gêmea a partir daquele momento.

E eles sorriram, e riram, se tocaram e se sentiram por dias que pareceram anos [ou seriam anos que pareceram dias?], até quando um deles resolveu se afastar.

Como acontece em toda boa história de amor, todo carnaval tem seu fim...

Anos depois eles se reencontraram. Tornaram-se amigos, ao menos, tentaram uma amizade possível depois de tantos sentimentos compartilhados. Só que ela continuava vendo o tal ponto luminoso, e, apesar de todos os avisos de "Pare já com isso!", se pensou forte o suficiente para encarar uma nova tentativa.

Afinal de contas, Vinicius já cantou tantas e tantas vezes que a vida só se dá pra quem se deu. Qual era o problema em tentar novamente? Quem sabe ela, enfim, teria a vida dada em suas mãos?

Foram meses e meses de beijos, camas, bons dias e sorrisos, não necessariamente nessa mesma ordem. Como se o Carnaval tivesse se estendido fora de época.

Um belo dia ele queria conversar. E você e eu sabemos bem que essa história de "Quero conversar" é sempre caixão e vela preta, não sabemos?  Pois bem, não era assim, tão radical, mas ele estava inseguro, não sabia se queria relacionamento sério, se era hora de namorar, essas coisas todas que seriam normais em um adolescente, mas não em um homem de 40 anos.

Ah, eu não havia dito a idade deles, não é? Pois muito bem, foi de propósito. Quero que, agora, você imagine um homem de 40 anos e uma mulher de quase 40 [mas com alma, corpo e coração de 20] tendo um caso assim, indeterminado, elíptico. Amigos, confidentes, amantes, mas não namorados. Ele não queria namorar.

Ele aparecia, de repente, num Sábado qualquer, e ela, sempre com os olhos no ponto luminoso, não conseguia dizer não. Só mais essa vez, ela tentava convencer a si mesma. Dessa vez vai dar certo, ela pedia, com as mãos elevadas, ao Deus que existia dentro de si mesma.

E então, numa segunda-feira qualquer, ela acordou com um peso nos ombros, com aquela sensação de não pertencer a esse mundo, como se algo tivesse se quebrado e ela não soubesse o quê nem como. Quando abriu a tal da rede social semeadora de discórdia, se deparou com um "Em um relacionamento sério". Mas péra, não era com ela! Como assim não era com ela?! Ele estava com ela até dois dias atrás! Ele a havia apresentado pros amigos, e dito "nossa casa"! Ele... Ele estava namorando, e não era com a nossa mocinha.

Ela, então, transformou toda aquela dor em lágrimas, e chorou não pela perda dele, mas pela perda de si mesma. Todos os sonhos, os planos, os sorrisos futuros e planejados haviam se acabado ali, no número final do Palhaço da vez, num aviso de status de uma rede social.

Ele poderia ter deixado claro que, veja bem, era só físico. Que, veja bem, a gente não deve fazer planos porque eu não quero planos com você. Que, veja bem, meu bem, eu não sou homem pra você e você não é mulher pra mim. Mas não, ele preferiu se esconder numa personagem a se mostrar, a mostrar pra ela o que realmente queria, ou não queria.

E naquela segunda-feira fria ela chorava por não ter visto. Visto os sinais, as atitudes, os avisos do Universo. Mas, Dona Mocinha da nossa história, não dava pra ver tudo isso, modiquê você estava olhando pro ponto luminoso. E aquele tal de ponto luminoso neon/fluorescente/odiaboaquatro da tal cara metade cega a gente, viu! Você desejava tanto que aquele ponto luminoso fosse de verdade, que acabou se esquecendo de olhar ao redor, e ver que era apenas o reflexo do amor que você carregava no seu coração.

Não pense que isso faz de você uma boba, não! Isso acontece com todo mundo que se deu. O que o Poetinha esqueceu de explicar é que nem sempre a vida se dá da melhor forma possível, ao menos, não da forma como a gente queria que ela se desse.

Olha, Mocinha, se eu pudesse te dar um conselho, pediria licença pra outra mocinha, do Elizabethtown, e te diria o seguinte:

"Abrace a tristeza por cinco minutos. Encare-a. Beije-a. E a esqueça. Cinco minutos. E prossiga"

Essa tristeza aí precisa ser vivida, afinal de contas, são pedaços de você que foram despedaçados. Agora, quanto ao palhaço lá, deixe que dele a vida cuida. Que ele seja feliz, se conseguir. Que ele nunca mais cruze seu caminho. E que se cruzar, você, em vez do tal ponto luminoso, veja um aviso bem grande de ALERTA na testa de palhaço dele.

E não deixe de continuar se dando, se permitindo, mesmo que todas as tristezas do mundo caim de seus olhos e que você tenha medo. Vamos combinar assim: eu te dou a mão, e a gente pula junto! Se cairmos, ao menos teremos companhia.

Ah, eu não te contei? A Mocinha é amiga da narradora. É... E olha, sorte deste tal palhaço que a narradora é uma invenção, pois, do contrário, iria botar fogo no circo e mandar o palhaço pros quintos dos infernos. Mas ó, nem vale a pena sentir ódio, porque isso faz mal pro coração.

E em vez de terminar esse texto, vou deixar umas reticências bem bonitonas aqui. Sabe por que, Mocinha? Porque quero vir depois e contar a história de que você foi feliz para sempre. Quero poder contar pra esses leitores curiosos daqui que você voltou a sorrir e largou mão dessa história de ponto luminoso [Afinal, uma coisa inventada por aquela criatura da Sociedade Alternativa só poderia ser furada!]. Quero dizer que única luz que você percebe agora é essa dentro de você, que ilumina seu caminho e a protege do escuro do medo.

Esse medo aí, que você está sentindo agora, de nunca mais ser capaz de se dar. E ó, eu venho cá dar outro conselho do seu Vinicius: o amor só é bom se doer. E essa dor não é pelo outro não, viu! É por você mesma! Porque o amor, esse tal de amor, é mais nosso que do outro. O outro poderia ser qualquer outro [o trapezista, o malabarista, o vendedor de pipocas], mas esse amor só pode ser seu. Mesmo que doa, guarde-o com carinho, modiquê é ele que vai fazer esse seu sorriso lindo voltar a brilhar.

E deixemos o Carnaval pra fevereiro. Enquanto isso, vivamos essa festa animada, surpreendente, doida e doída que é a vida! Que tal?

Ah! Já ia me esquecendo das
...

[Ps: Essa é uma história inspirada em uma história real. Não é minha, por isso não citei nomes. Mas poderia ser minha. Poderia ser a sua. A da sua amiga. Poderia ser de qualquer uma de nós. Por isso, se você encontrar um Palhaço desses por aí, atropele {ou esquarteje} sem dó, afinal, a gente nunca sabe quando ele vai querer colocar um fim no seu Carnaval. ;)]

Patrícia Pirota
Agosto de 2013

sexta-feira, 10 de abril de 2015

De todas as formas...

De todas as formas

De todas as formas indizíveis [e dizíveis]
eu disse o quanto gostava de você.
Abri a porta da minha vida,
e com delicadeza pedi pra você entrar.
Você não quis,
ficou parado na soleira
enquanto um vendaval me arrebentava o peito.
Logo eu,
que não queria ser a última romântica,
dei-te a flor mais bela do meu jardim.
Tão bobo dizer isso agora...
Agora que você mostrou
que pra você sou só mais uma pra coleção de lembranças...
Queria ter você ao meu lado,
mas você não teve coragem,
não pagou pra ver.
Agora ficamos assim:
Você aí, fora.
Eu cá, dentro.
Eu não saio.
Você não entra.
E meu amor vai minguando cada dia um pouco mais...
Vou ali fazer café.
Se quiser, entra
A porta continua aberta
Mas não demora,
que logo vem o vento da desesperança
e fecha.
A porta e o meu coração.

Patrícia Pirota
Num desses invernos da alma de 2000 e tantos...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

III - Sobre a brevidade da vida [Sêneca]

Essa é a carta III do livro Sobre a brevidade da vida, de Sêneca, traduzido por Lúcia Sá Rebello e publicado pela Editora L&PM Pocket.

Prefiro não estragar seu diálogo com Sêneca com minhas palavras. Ouça-o e absorva... Use seu tempo de forma prazerosa. Carpe diem! ;)

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1. Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdias quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos! São econômicos na preservação do seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza.

2. Agradar-me-ia questionar qualquer um dentre os mais velhos: "Vemos que já atingiste o fim da vida, tens cem ou mais anos. Vamos, faz o cálculo da tua existência. Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais e por aquelas com escravos, pelo dever das idas e vindas pela cidade. Acrescenta ainda as doenças causadas por nossas próprias mãos e também todo o tempo desperdiçado. Verás que tens menos anos do que contas.

3. Prescruta a tua memória: quando atingiste um objetivo? Quantas vezes o dia transcorreu como o planejado? Quando usaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste uma boa aparência, o espírito tranquilo? Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões ávidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morrer cedo".

4. O que está em causa então? Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu a tua fragilidade. Não te dás conta de quanto tempo já transcorreu. Como se fosse pleno e abundante, o desperdiças e, nesse ínterim, o tempo que dedicas a alguém ou a alguma coisa talvez seja o teu último dia. Temes todas as coisas como os mortais, desejas tantas outras, tal qual os imortais.

5. Ouvirás a maioria dizendo: "Aos cinquenta anos me dedicarei ao ócio[17]. Aos sessenta anos, ficarei livre de todos os meus encargos". Que certeza tens de que há uma vida tão longa? O que garante que as coisas se darão como dispões? Não te envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva? Não é tarde demais para começar a viver, quando já é tempo de desistir de fazê-lo? Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começar a viver?

[17]. Sêneca adverte contra aquela correria desvairada a que se entrega a maioria dos homens, que agem como animais, reiniciando sem cessar o mesmo movimento vão. Ora, essa inútil agitação não conduz senão ao esgotamento das forças físicas e à frustração mental. Ele não prega a preguiça, conforma afirma: "(...) não te convido à preguiça e nem à inércia" (XVIII, 2), apenas recomenda evitar a falsa operosidade e a fútil agitação.

Referência: SÊNECA, Lúcio Anneo. Tradução Lúcia Sá Rebello. Sobre a brevidade da vida. Porto Alegre: L&PM, 2008 p. 30-32

sábado, 4 de abril de 2015

Cinza

Minha poesia parou no muro.
No cinza da poluição.
No cinza da tristeza.
No cinza do suor.

Meu desalento pegou carona.
No cinza de teus olhos.
No cinza de um céu que chora.
No cinza de minhas mãos.

Meus amores foram-se embora
No cinza trem de uma estação qualquer.
Na cinza hora de um dia qualquer.
Na cinza desesperança de um coração qualquer.

Patrícia Pirota
Algum dia cinza de 2006